segunda-feira, 8 de agosto de 2011

SÉRIE IMAGENS DO PATRIMÔNIO: Rua João Alfredo: a rua do comércio de Belém.

Rua Conselheiro João Alfredo, início do século XX.
Reprodução: Álbum Belém da Saudade

Em fins do século XVII, a cidade de Belém possuía dois núcleos urbanos inicialmente distintos, separados por um grande alagadiço (o igarapé de nome Piri) e denominados “Cidade” e “Campina”. O primeiro surgiu junto ao Forte do Presépio, e foi por onde se iniciou a construção da cidade de Belém; e o segundo corresponde a área que deu origem à zona comercial da mesma.

Segundo o historiador Antônio Baena, a freguesia da Campina foi estabelecida em 1727, e não diferente do núcleo chamado Cidade, possuía como forte característica de sua paisagem urbana as ruas estreitas de desenhos irregulares, com poucas edificações, onde se situavam algumas igrejas e conventos que eram destaque em meio ao conjunto arquitetônico.

Aspecto da Rua João Alfredo na década de 1960.
Reprodução: PENTEADO, Antônio Rocha.
Belém: estudos de geografia urbana, vol. 1, 1968.


Foi em torno desta freguesia que se estabeleceu o comércio da cidade, o qual se transformou na Rua dos Mercadores, posteriormente Rua da Cadeia, pois era naquela área que se localizava a única cadeia da cidade no período e, mais tarde, Rua João Alfredo, como a conhecemos até os dias atuais. A rua constituía-se na principal artéria daquela área, situada entre o Largo das Mercês (atual Praça Visconde do Rio Branco) e o Piri, sendo desse Largo até o Convento denominada Rua de Santo Antônio. A Rua dos Mercadores se transformou no centro da zona comercial de Belém, devido suas lojas conterem variado sortimento de mercadorias que atendiam não só as necessidades da capital, mas de toda a Amazônia.





As características peculiares desta rua foram bastante retratadas por viajantes que visitaram Belém durante o século XIX, os quais descreveram suas percepções acerca daquele espaço urbano. Entre estes viajantes, destaca-se o britânico Alfred Wallace, segundo o qual, a Rua dos Mercadores era a principal da cidade, onde se encontravam também as melhores lojas de Belém. As casas de um só pavimento, e a rua mal conservada naquele período, com suas pedras ásperas que dificultavam a caminhada, foram outros aspectos por ele notados.

Esta rua descrita por Wallace possuía características diferenciadas quando comparadas com as demais ruas da cidade, as quais o viajante aponta como “todas muito estreitas”, com calçamento constituído por “pedras toscas, restos de antiga pavimentação” ou mesmo “areia movediça ou lamaçais”, que se agravavam com as chuvas; as casas eram “irregulares e baixas”, contrastando assim, com o belo aspecto causado pelas lojas existentes na Rua dos Mercadores, mas também reafirmando a precariedade da urbanização da cidade como um todo, característica comum durante grande parte do século XIX. Tal aspecto descrito por Wallace e por outros viajantes que aqui estiveram, começou a modificar-se com os projetos de urbanização, característico do período áureo da borracha na Amazônia, em fins do século XIX e início do XX.





Uma nova ordem econômica nascida com o advento da República impôs uma reordenação no meio urbano, através de políticas que objetivavam o embelezamento e a remodelação de hábitos e costumes sociais, que deveriam estar equiparados aos padrões europeus de civilização. Tal modelo de urbanismo moderno ganha notoriedade em Belém durante a administração do intendente Antônio José de Lemos, o qual reorganiza o espaço urbano em consequência da nova condição da cidade, como principal porto de escoamento da produção da borracha. Nesse período, o que hoje é o centro histórico de Belém, representava o modelo de uma cidade européia, demonstrando poder econômico e político patrocinado pela Bela Época que o látex proporcionara.

            No entanto, a partir do ano de 1907, o Pará começa a experimentar os primeiros indícios de sua crise econômica com a perda de espaço no mercado internacional, consequência da concorrência da produção planejada da borracha nos principais países do Oriente. Desta forma, a capital paraense resiste à crise até a década de 1920. A partir de 1930, a cidade de Belém passa por um processo de desaceleração da sua atividade econômica, voltando-se para as atividades industriais, que vão ter a sua concentração no bairro do Reduto.



Mais tarde, entre as décadas de 1950 e 1960, a Rua João Alfredo era considerada um dos principais pontos de encontro da cidade, uma espaço para se apreciar o que havia de melhor na moda tanto nas vitrines das lojas, quanto nas vestimentas de seus transeuntes; característica essa que perdurou por boa parte do século XX. Já na década de 1980 o comércio, anteriormente dinâmico e luxuoso, voltado para as camadas mais abastadas da sociedade local, começa a dar lugar a um comércio ainda mais variado e de caráter popular. Lojas de tecidos, livrarias, óticas, sapatarias, joalherias, farmácias, venda de artigos eletrodomésticos e importados, entre outros, passam a compor a “nova paisagem” da rua. O mercado informal também começa a ganhar espaço, sendo a via tomada pelos já conhecidos camelôs, vendedores de gêneros alimentícios, entre outros ambulantes.

Recentemente, a imprensa local mais uma vez divulgou algumas das diversas medidas a serem tomadas pela Prefeitura de Belém para a desocupação das Ruas João Alfredo e Santo Antônio pelos trabalhadores ambulantes, na tentativa de se fazer “cumprir a lei” regida pelo Código de Posturas do Município, o qual, ao tratar sobre a proteção estética, paisagística e histórica da cidade, recomenda à administração pública a adoção de normas complementares às medidas que visam a desobstrução da via pública para o trânsito livre e preservação da paisagem; a disciplina em relação à exposição de mercadorias; assim como a preservação dos conjuntos arquitetônicos; áreas e logradouros públicos que, pelo estilo ou caráter histórico, sejam tombados. Vale ressaltar que a Rua João Alfredo encontra-se em meio ao Centro Histórico da cidade, tratando-se desta forma, de uma área tombada pela lei nº 7.709 de 18 de maio de 1994.




No entanto, não são somente os trabalhadores ambulantes os “vilões” daquele espaço público. A utilização, muitas vezes inadequada, para fins comerciais dos prédios históricos, e mesmo a subutilização destes são fatores que muito contribuem para a destruição do patrimônio. As fachadas das edificações centenárias cobertas por grandes letreiros multicoloridos que também é infração legal; a utilização dos andares superiores destes prédios como depósitos de mercadorias; as calçadas irregulares e a ocupação das mesmas por gôndolas exibindo os produtos a serem vendidos pelas lojas; a poluição sonora ocasionada pelo alto volume das músicas ou pelo microfone do “animador”, incumbido de chamar a clientela para dentro das lojas; a falta de conservação e o lixo são fatores que ajudam a tornar o espaço urbano ainda mais degradado.

Neste sentido, se faz importante a realização de políticas públicas sérias que visem a preservação do patrimônio da Rua João Alfredo, levando em consideração não apenas a dimensão material do espaço (caracterizada pelos projetos que limitam-se à revitalização de fachadas), mas também a sua dimensão social, envolvendo os trabalhadores ambulantes que fazem parte daquele espaço, os lojistas e suas empresas e a população em geral, na medida em que, sem ações que visam sensibilizar as pessoas para o que precisa ser preservado, não será possível a sobrevivência de nosso patrimônio, nem tão pouco a execução, em sua plenitude, de políticas públicas voltadas pra o patrimônio cultural da uma cidade, do Estado e mesmo de um país.

Texto: Anna Raquel de Matos Castro

Anna Raquel Castro é Historiadora, Especialista em Patrimônio Cultural e Educação Patrimonial, Mestranda em História Social da Amazônia e diretora de comunicação da ASAPAM.
Contato: annaraquelcastro@yahoo.com.br

Imagens: Celso Roberto Abreu

Celso Abreu é fotógrafo, atuando no campo da fotografia há 10 anos. Iniciou suas atividades na Fundação Curro Velho, e possui diversos trabalhos publicados nacional e internacionalmente, este último sobre o arquiteto Antônio Landi. Além de fotografar eventos sociais, possui grande paixão pelo registro da arquitetura, sobretudo a relacionada aos bairros da Cidade Velha e Campina, em Belém – Pará.
Contato: celsoroberto06@yahoo.com.br

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