segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cordões de pássaros amargam falta de incentivo

Uma arte que vem do povo, para o povo. As fantasias dos personagens, cuidadosamente costuradas e bordadas à mão pela própria comunidade, ganham vida no período da quadra junina, como um dos espetáculos mais antigos da região. De acordo com alguns estudos, a tradição dos Pássaros - como uma opereta e mais recentemente com uma roupagem carnavalizada (cordões de pássaros) - é uma manifestação exclusiva do Pará. Se não bastasse, os Pássaros surgiram influenciados pela criação de um dos principais ícones da cultura local do tempo da Belle Époque, o Theatro da Paz.

Diretamente entusiasmado pelas companhias europeias de teatro, que frequentemente vinham a Belém, o próprio povo resolveu criar um espetáculo popular, com características típicas das operetas do Velho Continente.

Os Pássaros Juninos atravessam décadas para recentemente mostrar aos próprios paraenses que são fortes e pertencem às riquezas do Estado. Após anos de abandono, vários pesquisadores resolveram estudar o tema. Dentre as teses já escritas sobre essa manifestação cultural, está o projeto de doutorado de Margareth Refkalefsky, que abordou a função dramática do figurino dos Pássaros na capital paraense. “O que eu pude constatar é que se trata de uma expressão cultural riquíssima e pouco valorizada. Acho que não existe em nenhum outro lugar do Brasil um teatro popular tão elaborado, onde desde o diretor até o figurinista são pessoas da comunidade. Além disso, é um teatro com codificações incríveis, principalmente em termos de figurino”, ressaltou Margareth.

Em seu estudo, ela constatou que os Pássaros, apesar de muito antigos, usam elementos modernos nos seus métodos de interpretação. “Por incrível que pareça, os Pássaros são muito atuais, pois misturam drama, comédia e outras categorias em um só espetáculo. Eles fazem uma apresentação híbrida. Em termos técnicos, os Pássaros possuem um código que poucos teatros no mundo têm. Através das estampas das roupas, o público sabe quando a cena se passa na floresta, ou no castelo, por exemplo. E o mais legal é que a cada ano que passa, os grupos rememoram os textos antigos, porém com uma contextualização atual. Eles sempre atualizam esses textos para questões contemporâneas”, revelou a doutora.

Porém, apesar de tanta relevância, os Pássaros andam esquecidos. “Até alguns anos atrás, Belém possuía uma das melhores festas juninas do país. Era de uma diversidade enorme, tinha Pássaros, quadrilha, fogueira, boi, forró... Hoje o incentivo é pouco, os grupos de Pássaro que ainda restam precisam ensaiar nos quintais de casa, vão comprando as fantasias aos poucos e quando dá. Antes eles tinham um espaço para se apresentar, hoje eles quase não possuem. O Amazonas soube aproveitar as suas tradições, a exemplo de Parintins. Se soubéssemos usar a nossa, todos sairiam ganhando”, explicou.

Dos mais de cem grupos, restam 18 

Por si só, o Pássaro Junino já é uma modalidade como poucas, pois mistura teatro, música, dança e literatura, com lições de humanidade e respeito à natureza. Em um levantamento recente realizado pelo Instituto de Artes do Pará (IAP), foram identificados 18 grupos em atividade na Grande Belém. O enredo é muito parecido. Trata-se de um pássaro desejado pela nobreza. Por conta disso, ele é caçado e ressuscitado por um pajé. Normalmente o melodrama à fantasia dura uma hora. O valor cultural dos Pássaros é tão grande que, por lei, são considerados patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado.

Seu Wanderley Rodrigues é guardião do ‘Pássaro Rouxinol’ há 11 anos. Trata-se de um dos grupos mais antigos desta modalidade, já que o ‘Rouxinol’ possui 104 anos. “Foi criado pelo senhor Joaquim Pontes no século passado. Surgiu no bairro do Umarizal e hoje é feito na Pedreira. Para fazermos as apresentações, cerca de 58 pessoas são diretamente envolvidas, contando com os músicos. Fora a isso, ainda há os que trabalham na construção do espetáculo, como costureiras, bordadeiras, estilista, sapateiro”, ressaltou. Porém, apesar dos muitos prêmios colecionados pelo grupo, é possível que o ‘Rouxinol’ esteja próximo do fim.

“Nós fazemos porque amamos. Se algo não for feito, os Pássaros vão se acabar. No passado eram mais de 100 grupos, hoje são menos de 20. Eu mesmo pensei em desistir de fazer a apresentação neste ano, pois é tudo muito complicado, o incentivo é pouco e acaba que não se consegue nem pagar os prejuízos. Só iremos sair nesta festa junina porque meu tio, um brincante fiel, veio a falecer. As apresentações serão em homenagem a ele”, explicou o guardião. Segundo ele, é uma tradição que foi repassada pelos antepassados. “Minha avó era guardiã em 1985, tenho essa paixão pelo Pássaro nas veias”, explicou. (Diário do Pará)

Fonte: www.diarioonline.com.br 20/06/2011

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